Vivemos em uma sociedade intensamente competitiva. Desde cedo, somos treinados para não aceitar a derrota. Não gostamos de perder, não gostamos de ficar em segundo plano e, acima de tudo, não suportamos nos sentir “diminuídos” diante de outras pessoas.
No nosso vocabulário moderno, as palavras perder e diminuir carregam um peso negativo. Nós queremos crescer na carreira, ver a conta bancária crescer, aumentar o nosso número de seguidores e ter o nosso nome reconhecido.
Contudo, o Evangelho nos apresenta uma lógica completamente invertida, onde ser rebaixado pode ser a nossa maior bênção.
No capítulo 3 do Evangelho de João, encontramos uma das lições mais profundas sobre identidade, ego e santificação. O texto nos ensina a abraçar e aceitar o que eu chamo de “a boa diminuição”.
1. A Armadilha da Comparação e o Veneno do Ego
Houve um momento na história em que os ministérios de João Batista e de Jesus coexistiram. João estava batizando, mas os discípulos de Jesus também começaram a batizar e a atrair multidões (João 3:22-26).
Apesar de João já ter deixado claro que o seu próprio ministério estava chegando ao fim e que o seu papel era apenas “preparar o caminho”, os seus discípulos não aceitaram bem essa transição. Incomodados com o sucesso de Jesus, eles foram até João com um tom de reclamação e inveja:
“Mestre, aquele homem que estava contigo… está batizando, e todos estão indo para ele!”
— João 3:26
Aquele comentário carregado de rivalidade tinha o potencial de iniciar uma guerra de egos.
A história bíblica nos mostra como o ego ferido pode destruir um homem. Lembre-se do rei Saul. Quando o jovem Davi retornou vitorioso da batalha contra o gigante Golias, as mulheres de Israel cantaram: “Saul matou milhares, e Davi, dezenas de milhares” (1 Samuel 18:7).
Essa simples frase foi devastadora para o coração arrogante de Saul. A partir daquele dia, ele deixou de governar Israel com excelência e passou os próximos 10 anos da sua vida consumido pela inveja, tentando assassinar o homem que Deus havia escolhido. O orgulho cega.
2. A Identidade Saudável de João Batista
João Batista, porém, era o oposto a Saul. Diante da provocação dos seus discípulos, João não se sentiu ameaçado. Ele sabia que Cristo era o personagem principal daquela história. Em vez de disputar os holofotes, João proferiu uma das frases mais impactantes e belas de toda a Bíblia:
“É necessário que ele cresça e que eu diminua.”
— João 3:30
João nos ensina a sermos humildes e a aceitarmos com alegria o papel de “coadjuvantes” na grande obra da salvação.
Na Igreja do Senhor, Jesus não é a maior estrela; Ele é a única estrela. Quando compreendemos isso, o espírito competitivo desaparece e passamos a cumprir a nossa missão com dedicação e zelo, sem a necessidade doentia de reconhecimento humano.
3. O Que Significa “Cristo Crescer” em Nós?
Quando descemos às águas do batismo, confessamos publicamente que Jesus é o Filho de Deus e o Senhor das nossas vidas. O apóstolo Paulo diz que ali o nosso “velho homem” é crucificado (Romanos 6:4) e nós somos “revestidos de Cristo” (Gálatas 3:27).
Contudo, o batismo é apenas o início do processo de santificação. Ser revestido de Cristo é uma atitude contínua e diária. Todo cristão autêntico é habitado pelo Espírito Santo por meio do batismo nas águas, mas ser cheio do Espírito Santo (Efésios 5:18) exige que esvaziemos o nosso próprio “eu”.
Como o apóstolo Paulo declarou com maestria:
“Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.”
— Gálatas 2:20
Crescimento espiritual não é ganhar mais poder ou influência; é permitir ser diminuído para que o caráter de Jesus brilhe através de nós. É submeter a nossa vontade, o nosso bolso, os nossos relacionamentos e o nosso futuro à soberania do Mestre.
Conclusão: As Dores do Crescimento
Desde a queda de Adão e Eva no Éden, o ser humano carrega a semente diabólica de querer “ser como Deus” (Gênesis 3:5). Nós queremos dominar as situações, ter a última palavra nas discussões, receber os aplausos e ser o centro das atenções.
É por isso que o “diminuir” dói. O velho homem, a nossa carne, tenta ressuscitar todos os dias. Travamos uma luta de vida ou morte contra o nosso próprio ego. Mas o segredo da verdadeira paz está em cortar de nós tudo o que tenta ofuscar a glória de Deus (Marcos 9:43).
Faça essa pergunta sincera a si mesmo hoje: O que você precisa diminuir na sua vida para que Jesus possa crescer? É o seu orgulho? É a sua necessidade de ter sempre razão? É a busca por status?
Abrace a boa diminuição. Deixe o controle nas mãos do Criador. O maior privilégio que um ser humano pode ter não é ser o centro do palco, mas ser a voz que aponta para o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!
Escrito por: Diego Tolotto
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